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Voluntários transformam suas casas em abrigos para centenas de animais resgatados em Barra do Garças

16 de ago.
6 min de leitura

Grupos de protetores independentes unem-se em associações para conseguirem apoio financeiro do poder público da cidade


Por: Bruna Milhomem


Valente não recebeu esse nome por acaso. O vira-lata foi encontrado à beira da morte, com uma ferida profunda na cabeça e cego dos dois olhos. Quem o resgatou foi Valéria da Silva, moradora da Vila Maria e protetora voluntária do município de Barra do Garças. O destino de Valente poderia ser o mesmo de tantos outros animais abandonados, mas Valéria decidiu lhe dar uma segunda chance. Hoje, além dele, outros 12 cães e 7 filhotes de gatos vivem sob seus cuidados, dividindo espaço e carinho dentro de sua casa.


Assim como Valéria, dezenas de voluntários enfrentam desafios diários para resgatar e cuidar de animais de rua. Sem um abrigo municipal e com poucos recursos, muitos transformam suas próprias casas em lares temporários para cães e gatos que, sem essa ajuda, dificilmente sobreviveriam.


Valente foi resgatado e tratado graças a iniciativa voluntária da cidade
Valente foi resgatado e tratado graças a iniciativa voluntária da cidade

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 30 milhões de animais em situação de rua por todo o país, sendo 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. Em Barra do Garças/MT, boa parte dos animais abandonados são resgatados e levados para lares temporários, enquanto outros recebem cuidados nas ruas mesmo, como é o caso de gatos abandonados por todos os bairros da cidade, os quais predominam em relação aos cachorros, chegando em cerca de 1500 felinos, segundo o um levantamento da Secretaria Municipal do Meio Ambiente.


Alguns outros cães sob os cuidados de Valéria
Alguns outros cães sob os cuidados de Valéria

O cuidado voluntário é realizado tanto no âmbito formal, que é o caso das Associações Filantrópicas e Organizações Não Governamentais (ONG’s), quanto de maneira informal, que são os protetores independentes, que atuam de forma solitária ou, como no caso de Valéria, em pequenos grupos. Independente da forma como atuam, todos os voluntários lidam com os mesmos desafios, angariando recursos da forma que conseguem, para recolher, abrigar, castrar, alimentar e vermifugar o máximo de animais possível.


“Com a pandemia eu comecei a prestar mais atenção na quantidade de gatos aqui na minha rua, então comecei a alimentá-los. Daí eu e uma vizinha nos juntamos para castrar pelo menos as fêmeas, para não se multiplicarem, mas mesmo assim eles acabam migrando de outros bairros. Eu já tive vários problemas com os vizinhos, porque a gente sabe que tem pessoas que respeitam, mas também tem aquelas que não respeitam e não gostam de animais”, relatou Luciana Lima, professora do curso de Engenharia de alimentos da UFMT e membro da Associação Resgatando Amor em Patas (ARAEPA).


Muitos cães e gatos são abandonados por estarem doentes ou, no caso das fêmeas, gestando filhotes, e na rua acabam se multiplicando e formando superpopulações. (créditos: Luciana Lima)
Muitos cães e gatos são abandonados por estarem doentes ou, no caso das fêmeas, gestando filhotes, e na rua acabam se multiplicando e formando superpopulações. (créditos: Luciana Lima)

A ARAEPA foi fundada em maio de 2024, e hoje conta com 56 voluntários, que juntos cuidam de mais de 1600 animais. Cada voluntário ajuda com um valor simbólico mensalmente para ajudar a custear a compra de ração e de medicamentos. Há também sorteios e rifas para castrações e divulgação de vaquinhas nas redes sociais. Tudo isso é promovido em parceria com a clínica veterinária Animais & Cia, da Dra. Regiane Montechi, uma das idealizadoras do projeto.


Em conversa com a presidente da associação, Zenilce dos Santos, ela explica que a ARAEPA foi idealizada pois precisavam ser reconhecidos como uma organização, precisavam de um CNPJ, para receber apoio do poder público do município. “Não temos um local para abrigo, todas as voluntárias cuidam deles [dos animais] em suas casas, algumas chegam a ter mais de 100 gatos e cachorros. Também cuidamos deles nas ruas, distribuindo ração nos locais onde eles costumam ficar e tentando pegar o máximo possível para castrar, principalmente gatos, que reproduzem com mais frequência.”, contou Zenilce.


O abandono prejudica não só para o bem-estar animal, também é uma questão de saúde pública, tendo em vista doenças zoonóticas, como é o caso da Leishmaniose. Segundo o Dr. Michael Fernandes, médico veterinário da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, a doença não é transmitida diretamente por cães e gatos, mas eles podem atuar como reservatório para o parasita.


O ciclo da transmissão ocorre da seguinte forma:


  1. Um mosquito-palha pica um animal infectado (cão ou gato) e ingere os protozoários Leishmania presentes no sangue.


  2. Dentro do mosquito o protozoário se desenvolve e torna-se infectante.


  3. O mosquito infectado pica um humano ou outro animal, transmitindo o protozoário.


“Precisamos buscar medidas de conscientização da população, para que evitem o acúmulo de lixo, entulho e água parada, pois isso ajuda na proliferação do mosquito vetor”, alerta o veterinário.


Há casos de abandono no município que ocorrem pelo fato do animal estar infectado e o tutor temer erroneamente que o contágio acontece pelo contato. No ano de 2023 houve uma endemia de Leishmaniose canina na cidade. Em depoimento à Prefeitura de Barra do Garças, a então diretora da Vigilância Sanitária, Tiara Shimano, afirmou: “O cachorro não vai contaminar ninguém. Tem gente que abandona o cachorro com medo de se contaminar, mas isso não acontece”.


“O mosquito-palha se alimenta de matéria orgânica, frutos apodrecidos, folhas de árvores, vegetais em decomposição e fezes de animais, por isso precisamos estar sempre com os quintais limpos para eles não terem do que se alimentar. Sem alimento eles não vão sobreviver”, salientou Shimano.


Além do contágio de doenças e riscos de atropelamentos, cães e gatos abandonados também podem sofrer transtornos psicológicos devido ao trauma do abandono, principalmente quando são maltratados. A Dra. Regiane Montechi recebe em seu hospital veterinário animais recém resgatados, especialmente pelas entidades parceiras da clínica, e relata que o comportamento que predomina em seu consultório é o medo.


Os veterinários também ressaltaram a importância da chipagem para a identificação dos animais. O microchip é implantado, e através de um leitor, podem ser coletadas informações como data de nascimento, situação de vacinas, castração e identificação do tutor. Dessa forma, caso o animal seja abandonado e estiver com o chip, o responsável poderá ser localizado e responder pelo crime cometido.


Resgate de família de cães feito pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (créditos: Michael Fernandes)
Resgate de família de cães feito pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (créditos: Michael Fernandes)

Para os voluntários e especialistas da região, a falta de abrigos e de políticas públicas para controle populacional são os problemas que deveriam ser resolvidos com mais urgência pelo poder público. Nesse sentido, a Câmara Municipal de Barra do Garças aprovou, em maio de 2024, o projeto de lei nº 028, de autoria do Poder Executivo, que institui o Conselho Municipal de Proteção Animal (COMPA) e o Fundo Municipal de Amparo aos Animais.


Quem teve a iniciativa do projeto foi o presidente da casa legislativa, o vereador Zé Gota (MDB), segundo ele, o Conselho foi idealizado com o intuito de convocar a sociedade organizada, como membros das associações e órgãos públicos, para colocar em debate as pautas de bem-estar animal pendentes no município. Já o Fundo Municipal servirá para gerir o conselho financeiramente.


“Já estamos trabalhando em recursos para providenciar um castramóvel [um automóvel destinado a campanha de castração gratuita], mas não podemos pensar em campanha de castração e deixar de lado a questão de um local específico para abrigar esses animais. Por isso foi discutido pelas entidades públicas e firmado um Acordo de Ajustamento de Conduta (TAC), para pegar o local onde atuava a ONG do nosso saudoso e eterno Garrincha e abrigar os animais já castrados.” explicou o vereador.


“Garrincha dos animais” foi uma das personalidades mais amadas da cidade e deixou um grande legado através de seus trabalhos como ambientalista e ex-vereador. (créditos: instagram @amigosdosanimaisbg)
“Garrincha dos animais” foi uma das personalidades mais amadas da cidade e deixou um grande legado através de seus trabalhos como ambientalista e ex-vereador. (créditos: instagram @amigosdosanimaisbg)

Francisco Candido da Silva, conhecido na cidade como Garrincha, era ambientalista, ex-vereador e fundou a Associação Amigos do Animais, que atuava na proteção da fauna e flora barragarcense. Garrincha veio a falecer, em novembro de 2024, devido a um acidente que sofreu enquanto realizava um de seus trabalhos na cidade. Como pontuou Zé Gota em seu depoimento, o ambientalista vinha, há muitos anos, alertando o poder público e a população em relação às questões sanitárias e ambientais do município.


Pantera em seu novo lar, no colo de um dos filhos de Maria. (créditos: Maria José)
Pantera em seu novo lar, no colo de um dos filhos de Maria. (créditos: Maria José)

A adoção responsável é um passo primordial para diminuir as colônias de animais que se formam tanto nas ruas, como nos lares, os quais deveriam ser temporários, mas acabam virando permanentes. Diante disso, as associações e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente realizam campanhas de adoção através das redes sociais. Este ano vários filhotes de cães foram levados para a feira livre da cidade, para conseguirem um lar.


Maria José Abreu adotou uma cadela através das redes sociais da Secretaria e a batizou de Pantera. “Eu vi nas redes sociais e decidi adotar ela, porque gosto muito de cachorros e as crianças aqui em casa amam brincar com eles, nós já tínhamos duas e agora com a Pantera são três.” contou a moradora.


Filhotes abandonados em uma caixa de papelão ganham a chance de ter um lar na feira livre de adoções de Barra do Garças. (créditos: Michael Fernandes)
Filhotes abandonados em uma caixa de papelão ganham a chance de ter um lar na feira livre de adoções de Barra do Garças. (créditos: Michael Fernandes)

Pantera foi doada junto com outro filhotes da mesma mãe, pois Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, a tutora da cadela que deu à luz aos filhotes não teria condições de ficar com eles e doou para o órgão responsável. Infelizmente nem todo mundo tem a mesma consciência e responsabilidade, e acabam abandonando uma família inteira de animais, ao invés de procurar ajuda e providenciar um novo lar para eles. Foi o que aconteceu com alguns filhotinhos de cachorro que foram resgatados pela Secretaria e enviados para doação responsável na feira livre.


É importante frisar o fato de que o abandono de cães e gatos é crime. Para denunciar, basta entrar em contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente através do número (66) 3402-2017, que também realiza atendimento via WhatsApp, ou acionar a Polícia Militar, pelo número 190.

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